terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Orações




Quero partilhar com vocês belos textos que me estão fazendo muito bem por esses dias de trevas pessoais!


O Peregrino do Senhor
Altiva Noronha

Senhor!
Eu gostaria de servir,
Gostaria de dar o meu contributo
em favor de um mundo melhor. Gostaria de ser grande e nobre,
para que a dor batesse em retirada da Terra.
Eu gostaria de ser como uma Via-láctea de estrelas,
Para que as noites da Terra fossem mais belas!
Mas ante a minha pequenez, Senhor?!
Não podendo, então ser uma Via-láctea,
deixa-me ser um pirilampo na noite escura,
Iluminando a amargura
de quem vive na escuridão.

Eu queria ser como a chuva generosa,
que caísse sobre a terra porosa
e reverdecesse o chão.
Mas, se eu não o conseguir,
eu te venho pedir
para ser o copo de água fria,
matando a sede, a agonia,
de alguém que está na desesperação.

Eu queria ser como um jardim de flores
de todas as cores,
para embelezar a Terra,
mas, na pobreza que minha alma encerra,
se eu não puder ser um jardim,
deixa-me ser uma flor solitária
na rocha colocada,
para dar beleza
e dignificar a natureza.

Eu queria ser um trigal maduro,
para repletar a mesa
da Humanidade com o pão!
Mas se eu não o puder,
aqui estou a rogar
para ser um grão
que, caído no chão,
se transforme num milhão
e atenda à fome inteira da multidão!

Senhor!
Eu gostaria de ser a montanha altaneira,
donde se tivesse a visão da Terra inteira,
mas, como nunca o hei de conseguir,
aqui estou a pedir
para ser uma pedra
pavimentando o caminho por onde seguem os heróis,
ou uma escada
para ajudar a subida dos homens.
Mas, se eu não o lograr,
deixa-me ser o primeiro degrau...

Eu queria, sim
ser poeta,
orador,
esteta,
artista,
prosador,
para cantar a magia,
a poesia,
a beleza da Tua Mensagem
de eterna pujança!
Mas, como me faltam o estro,
a palavra,
a tinta,
a empatia,
deixa-me, Senhor,
ficar à sombra de uma árvore
no caminho,
para quando passe alguém
de mansinho,
eu lhe diga:
- “Olá, meu amigo!”
E ele, olhando-me,
Possa perguntar quem sou
E eu lhe responder, tranqüilo: “Sou teu irmão.
Dá-me tua mão.
Irei contigo..."

Ó Senhor!
Muito obrigado,
porque nasci,
porque creio em Ti.
Muito obrigado!


Oração de São Fracisco de Assis

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; Onde houver ofensa, que eu leve o perdão; Onde houver discórdia, que eu leve a união; Onde houver dúvida, que eu leve a fé; Onde houver erro, que eu leve a verdade; Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver tristeza, que eu leve a alegria; Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, Fazei que eu procure mais Consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois, é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Ensaio sobre a Dor

A Dor é o mais belo de todos os sentimentos. Sim, um sentimento. Claro, aquela que vai além do que é físico. É aquela Dor que se sente nas veias, pulsando forte, e sai pelos poros, exalando seu cheiro doce e pesado. Essa Dor que não passa, que continua se sentindo em meio a alegria e a bebedeira, persiste ao sono e ao Prozac. É essa Dor que traz à vida sua beleza mais plena.
É pela Dor que os homens crescem, é pela Dor que tomam consciência de si, suas verdades. Na Dor, o homem encontra seu tesouro mais precioso, ele encontra seu próprio Espírito. A Dor é nascida do Amor, o Amor que, primeiro, se escondeu, depois, se deu e, enfim, se revelou. Das águas tortuosas do Amor, nasce a calmaria trazida pela Dor. É por Ela que o homem sabe que tem que continuar, se levantar e ir à luta, se embebedar de Amor e Paz. É por ela que a História progride e a Ciência se faz. O Sol só se levanta pela manhã por causa da Dor dos homens, o mesmo se diz das nuvens que descarregam-se para limpar o que restou do Amor.
É das chagas da Dor que se tiram os melhores poemas, é do meio de Seus espinhos que se pode ver Deus, é pelo sangue derramado e emposado no chão que se pode fortalecer o coração. Cada parte do homem treme e arde à Dor e de um turbilhão ecoa sua voz que diz: "Me leva, Dor, me leva". A Dor é uma amante de noites frias e suas fantasias sexuais.
A Dor é o Caos. Dele tudo deriva. Cada sensação humana, cada gesto e emoção passou por Ela e se criou. Ai, daqueles que não entendem a Dor e evitam-na! Todos deviam sentir o quão divina Ela é.


Dedicado à Luana Justus, Dani Kafuri, Bethânia Vaz, Luma Verdeiro, Laís Comini, João Paulo Nóbrega, Thi, Fernanda, Francisco e Camilla Fukunaga por saberem me mostrar o melhor caminho e a Henrique Rodrigues Neto por me mostrar que não sou de pedra.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Céu

Nesses dias tem chovido muito, não saio de casa sem me molhar. A água escorre pelas ruas, pelos cantos, limpa, me limpa. Nesses dias, não vi o Sol, nem a Lua, os dias são escuros, as noites mais frias que o comum. Não me sinto triste, a chuva me refresca, me liberta, sinto paz por essas águas, Não me lembro do Sol, mas Lua me persegue, bate em minha porta, vou atendê-la e só vejo a água escorrendo, leve, me leva... O Sol não me faz sofrer, se escondeu nas nuvens e lá desistiu de viver, o Sol que outrora brilhou com força, deixando-me semi-morto em um deserto de emoções, sem água, sem paz, só luz, luz que maltrata a visão e impede a clareza de certas ideias, ele não me faz sofrer. O Sol não me machuca mais, esqueceu-se de mim, e minha saudade é a melhor forma de esquecimento. Mas a Lua vem, chama, clama, me tira da cama, dói. A Lua é repleta de sentimentos, a Lua chega a mim e pede ajuda, a Lua nunca me esqueceu. E eu, coitado, ia feliz pela chuva, muitas vezes sem ver dois metros a frente, eu, encharcado, esquecido dos dias e das noites, ignorava tudo e vivia nada. Lua, prateada, sem luz, iluminadora, apaixonada. Lua, essa que não me esqueceu, Lua, essa que me chama pelo nome e que a chuva encobre. Lunáticos pensamentos, vontade de sair de casa, soprar as nuvens e me banhar de Lua. A Lua me fez sorrir, me fez rir, me fez amar e a chuva me tirou seu hálito, fresco hálito noturno que me fez ver tudo com clareza. Ouço a voz que chora, não chore... Confundo-me, Sol, Chuva, Lua. Lua e Chuva. Sol depois da Lua. Lua que leva a maré, Lua que dispõe as estrelas no céu, Lua que some e volta, triste Lua que morre a cada dia, fardo grande o seu e o meu maior, o meu é amar a Lua. Destrua-me, Lua, consuma-me, queime, arraste, ame-me!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Vida

Morre uma, nasce outra
De manhã, uma, pela noite, outra

Cresce o menino que não quer crescer
Fica forte e saudável como a mãe quis
Cresce o menino, diminui o mundo
Um mundo triste e vazio que o menino não quis

Uma vida é uma ilusão
É um dia e seu fim

O menino tem saudades dos brinquedos
Ele não quer mais voltar
O menino lembrar do primeiro beijo
Já tá na hora de casar

O relógio é a faca
A vida é o queijo

Num segundo, o menino descobri a verdade
Dói uma decepção, machuca o coração.
Disseram que homem de verdade não tem vaidade
Mas disseram pra cortar a unha da mão

Tudo que se diz dessa vida é mentira
São verdades que a morte vem e tira

O menino não é mais garoto
Mas ainda tem um novo coração
Renova sua vida em si
Mas vida é só uma citação

Quem dera o garoto pudesse ver
A verdade do mundo é o seu querer
Seu querer de tranformar, de renovar
De uma nova vida criar

A manhã trás o sol e a vida
A vida não tem fim



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O Frade e a Freira

Em frente ao oratório em seu quarto em um convento isolado do resto do mundo, uma mulher nua estava ajoelhada e chorava entre tantas ave-marias e pai-nossos, seu rosto era formado de angústia e sofrimento e nos seus olhos brilhava o amor, amor tão puro e sincero, mas completamente proibido pelos homens e por Deus. Nesse lugar, a única iluminação vinha de uma vela posta em frente a santa e embora não iluminasse muito bem a santa, iluminava a mulher chorosa presa ao chão. Atire a primeira pedra, atire, pensa ela.
No alto da igreja ao lado do convento, um sino de ouro bate três vezes. Três da manhã, é chegada a hora. A mulher se levanta, pega da cama seu hábito, azul-celeste cheirando a enxofre e só ela sentia, azul-celeste, como a Mãe, pecadora como a outra Maria. Vamos, não temas e atire a primeira pedra. Cobria-se quando ouviu-se um leve toque na porta e pés ligeiros no chão de madeira. É ele, pensou. E seu rosto inundou-se em um sorriso sacro de amor divino, o sorriso pecador e santo que Lúcifer dava ao ver Deus antes de sua queda. Abriu a porta, olhou a sua volta, escuridão. Pegou a vela e seguiu a mesma direção dos passos, mas os delas eram leves e não se ouviam.
Uma bela porta entalhada a mão postava-se a frente da mulher, que a empurrou, levou o corpo para dentro e deu a última examinada no lado fora, escuridão.
Lá dentro, uma igreja, como um altar monumental e ornamentado, no meio dele Cristo crucificado. Morreu por mim, por nós, pelos nossos pecados. Do seu lado direito, Maria se exibia santa e imaculada, azul-celeste, celestial. A mulher virou a cara. A Senhora amou José, amou, sim. E a esquerda dele, São Valentim vestia-se de rosa-púrpura e r
ia da situação. Essa é a igreja dos apaixonados.
Ela olhou tudo e logo abaixo, via um sinueta masculina, nua. Seu corpo era claro, alvo, e olhava para o altar em busca de explicações.
Eros, sussurou a voz da mulher que ecoou por todo altar e voltou a ela, que se assutou com o próprio barulho. Ele se virou e sorria maravilhado, rígido. Maria. Maria, era esse o nome, Maria, mãe, Maria, paz, Maria, Maria.
Ela se despiu e correu para junto dele e lá se amaram mais uma vez.
Depois da missa do sábado, Tueris, uma freira nova, chegou-se a Maria, Eu vi. Fez um silêncio e ela repitiu, Eu vi. Vi você e Eros, sei de tudo e contarei seu pecado a Madre Verônica, vocês serão expulsos e vai ser agora. Maria não pode nem responder, estátua de sal, olhava para trás, para seu pecado e amava-o. Continuou ali por um tempo, sem pensar em nada e via Tueris se afastar. então correu, tinha que chegar ao seminário, encontrar Eros e lhe contar tudo, ela correu como pode, levando seu hábito azul-celeste, como o tinha levantado na primeira noite que passara com Eros, e correu. Atire a primeira pedra, pecadora que sou, perdoa-me Pai, perdoa-me Mãe, amaste José, amaste. Um seminário antigo, um corredor cheio de futuros padres, uma freira de hábito azul-celeste, linda, era só isso que se via.
Tueria sabe de tudo, nos viu no altar no último dia que lá estivemos, eu e você. Eros olhou para a cara dela desesperada sem saber o que fariam e disse, Não esperava que fosse tão cedo, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha da mulher, Mas sabia que aconteceria e esperava esse momento para te pedir que fujas comigo.

Um seminário antigo, um corredor cheio de futuros padres e uma freira de hábito azul-celeste correndo o mais rápido que podia, iria viver o seu amor.
Maria, ouviu-se o grito quando ela em seu quarto pegava seus pertences, um terço velho de família, umas notas de dinheiro e só, era o que tinha, pobre Maria. Maria, e quando ela saiu pela porta de seu quarto, via Madre Verônica vermelha como as poucas vestes de São Sebastião e Tueris ao lado, sorrindo. Maria correu, dessa vez chorava, era sua vocação que deixava para trás, junto a Madre Verônica e a igreja dos apaixonados, era para Deus que dava as c
ostas e para seu voto sagrado e quebrado. E Maria chorou, como o Filho daquela outra, chorou, enquantou corria desesperadamente para os braços da felicidade que a vida e a carne lhe ofereciam, ela chorou amargamente.
Nas portas do terrenos que abrigava o convento, o seminário e a igreja dos apaixonados, Eros a esperava com um burro, um burro! Atrás dela a Madre e a freira ainda corriam, ela parou. Vem, Maria, gritava ele, Maria, Maria, gritavam elas. Era o que realmente queria, não podia deixar tudo isso por um sonho fugaz, então olhou Eros com pesar, virou para a Madre Verônica e tirou do cabelo o véu, jogou- o no chão e correu para Eros que a acomodou em cima do burro.
E pelas estradas andavam, a busca de um lugar para construir uma vida. Em paz
, ela no burro, ele a pé na frente e o mundo em volta. Não demoraram a encontrar um lugar bom e bonito, como Maria queria, ao pé daquelas montanhas conhecidas como O Frade e a Freira, construiriam um lar, estava decidido. E ela, enfim, disse, estou grávida de ti, Eros, grávida. E ele sorriu, sob a sombra das montanhas.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Escuridão

Já ouvimos dizer dos mais estranhos amores, amores por animais, pedras, objetos, professoras de matemática, mas o amor de Joaquim é inédito, nenhum ser humano antes se atreveu a se apaixonar pela escuridão.
Não se sabe ao certo como aconteceu, mas Joaquim passava o dia sonhando pela hora do crespúculo, quando novamente veria sua amada. No trabalho, já era uma estátua, trocos errados e clientes insatisfeitos lhe sobravam e, como morava sozinho, em casa, sentava-se em um sofá, de onde via o sol indo e indo, o coração palpitava e a respiração não saia das narinas, o pulmão se virava como podia, sem ar.
Enfim, a noite chegava e sua bela entrava devagar pelas frestas das portas e da janela, derramando seu vestido negro sobre os móveis e suavemente abraçava-o e ele sem forças arrepiava-se. Que perfume bom traz-me, amor. Joaquim sentia, então, na sua boca o toque suave da escuridão, que frio era, e o homem devolvia mordidinha leves nela.
Quando não aguentava mais a excitação, lentamente, sem desgrudar-se daquele vulto apaixonante, se levantava e abraçados iam para o quarto. Lá, começavam a dançar, ora um levava, ora o outro, e se tocavam com a doçura de amores novos, que era certamente o deles, e com a pureza de virgens em colinas de pastagens novas em primaveras. Joaquim ao pouco ia despindo a roupa que levava e cada peça podia sentir melhor o corpo de quem tanto amava, ele se enchia de prazer, ofegava a cada movimento e se estremecia, às vezes ria-se da reação do seu próprio corpo, que tremia e se contorcia.
E passado um tempo, vería-no-mos completamente nu se a escuridão, seu par, não o cobrisse ali por completo. Eram um homem nu e a total ausência de luz formando um único ser, de onde ouvíamos os gemidos sinceros daquele e o silêncio dessa, na mais perfeita harmonia, no real prazer que o amor os dá, o prazer de estarem juntos, compartilhando a pele e o ar, tendo nele a escuridão, tendo nela o Joaquim.
Quando acordou, Joaquim não quis abrir os olhos, sabia que ela já tinha ido e a claridade tomara seu lugar, na sua frente a tinha, na forma perfeita, ou na falta de uma forma, mas estava ali na sua frente. O pior dessas noites de amor era que ele sempre adormecia e quando acordava já não a via em lugar nenhum, não podia por muito tempo tê-la ao seu lado.
Ele, então, se matou. Agora, na eterna escuridão, poderia com ela mestrar a mais bela dança, ela já informe como é, ele na sua nova forma que a completava, alma informe então se tornou.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Vazio II

Sem dor nem felicidade, me sinto no completo vazio de sentimentos e pensamento. Tento encarar essa falta de tudo como apenas um passo, como o princípio de novas coisas, mas me perco sem rumo, nessa neblina que me cobre os olhos e, de tão densa, me segura ao chão. Entrego-me ao chamado e durmo na espera de amanhã.