segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O Frade e a Freira

Em frente ao oratório em seu quarto em um convento isolado do resto do mundo, uma mulher nua estava ajoelhada e chorava entre tantas ave-marias e pai-nossos, seu rosto era formado de angústia e sofrimento e nos seus olhos brilhava o amor, amor tão puro e sincero, mas completamente proibido pelos homens e por Deus. Nesse lugar, a única iluminação vinha de uma vela posta em frente a santa e embora não iluminasse muito bem a santa, iluminava a mulher chorosa presa ao chão. Atire a primeira pedra, atire, pensa ela.
No alto da igreja ao lado do convento, um sino de ouro bate três vezes. Três da manhã, é chegada a hora. A mulher se levanta, pega da cama seu hábito, azul-celeste cheirando a enxofre e só ela sentia, azul-celeste, como a Mãe, pecadora como a outra Maria. Vamos, não temas e atire a primeira pedra. Cobria-se quando ouviu-se um leve toque na porta e pés ligeiros no chão de madeira. É ele, pensou. E seu rosto inundou-se em um sorriso sacro de amor divino, o sorriso pecador e santo que Lúcifer dava ao ver Deus antes de sua queda. Abriu a porta, olhou a sua volta, escuridão. Pegou a vela e seguiu a mesma direção dos passos, mas os delas eram leves e não se ouviam.
Uma bela porta entalhada a mão postava-se a frente da mulher, que a empurrou, levou o corpo para dentro e deu a última examinada no lado fora, escuridão.
Lá dentro, uma igreja, como um altar monumental e ornamentado, no meio dele Cristo crucificado. Morreu por mim, por nós, pelos nossos pecados. Do seu lado direito, Maria se exibia santa e imaculada, azul-celeste, celestial. A mulher virou a cara. A Senhora amou José, amou, sim. E a esquerda dele, São Valentim vestia-se de rosa-púrpura e r
ia da situação. Essa é a igreja dos apaixonados.
Ela olhou tudo e logo abaixo, via um sinueta masculina, nua. Seu corpo era claro, alvo, e olhava para o altar em busca de explicações.
Eros, sussurou a voz da mulher que ecoou por todo altar e voltou a ela, que se assutou com o próprio barulho. Ele se virou e sorria maravilhado, rígido. Maria. Maria, era esse o nome, Maria, mãe, Maria, paz, Maria, Maria.
Ela se despiu e correu para junto dele e lá se amaram mais uma vez.
Depois da missa do sábado, Tueris, uma freira nova, chegou-se a Maria, Eu vi. Fez um silêncio e ela repitiu, Eu vi. Vi você e Eros, sei de tudo e contarei seu pecado a Madre Verônica, vocês serão expulsos e vai ser agora. Maria não pode nem responder, estátua de sal, olhava para trás, para seu pecado e amava-o. Continuou ali por um tempo, sem pensar em nada e via Tueris se afastar. então correu, tinha que chegar ao seminário, encontrar Eros e lhe contar tudo, ela correu como pode, levando seu hábito azul-celeste, como o tinha levantado na primeira noite que passara com Eros, e correu. Atire a primeira pedra, pecadora que sou, perdoa-me Pai, perdoa-me Mãe, amaste José, amaste. Um seminário antigo, um corredor cheio de futuros padres, uma freira de hábito azul-celeste, linda, era só isso que se via.
Tueria sabe de tudo, nos viu no altar no último dia que lá estivemos, eu e você. Eros olhou para a cara dela desesperada sem saber o que fariam e disse, Não esperava que fosse tão cedo, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha da mulher, Mas sabia que aconteceria e esperava esse momento para te pedir que fujas comigo.

Um seminário antigo, um corredor cheio de futuros padres e uma freira de hábito azul-celeste correndo o mais rápido que podia, iria viver o seu amor.
Maria, ouviu-se o grito quando ela em seu quarto pegava seus pertences, um terço velho de família, umas notas de dinheiro e só, era o que tinha, pobre Maria. Maria, e quando ela saiu pela porta de seu quarto, via Madre Verônica vermelha como as poucas vestes de São Sebastião e Tueris ao lado, sorrindo. Maria correu, dessa vez chorava, era sua vocação que deixava para trás, junto a Madre Verônica e a igreja dos apaixonados, era para Deus que dava as c
ostas e para seu voto sagrado e quebrado. E Maria chorou, como o Filho daquela outra, chorou, enquantou corria desesperadamente para os braços da felicidade que a vida e a carne lhe ofereciam, ela chorou amargamente.
Nas portas do terrenos que abrigava o convento, o seminário e a igreja dos apaixonados, Eros a esperava com um burro, um burro! Atrás dela a Madre e a freira ainda corriam, ela parou. Vem, Maria, gritava ele, Maria, Maria, gritavam elas. Era o que realmente queria, não podia deixar tudo isso por um sonho fugaz, então olhou Eros com pesar, virou para a Madre Verônica e tirou do cabelo o véu, jogou- o no chão e correu para Eros que a acomodou em cima do burro.
E pelas estradas andavam, a busca de um lugar para construir uma vida. Em paz
, ela no burro, ele a pé na frente e o mundo em volta. Não demoraram a encontrar um lugar bom e bonito, como Maria queria, ao pé daquelas montanhas conhecidas como O Frade e a Freira, construiriam um lar, estava decidido. E ela, enfim, disse, estou grávida de ti, Eros, grávida. E ele sorriu, sob a sombra das montanhas.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Escuridão

Já ouvimos dizer dos mais estranhos amores, amores por animais, pedras, objetos, professoras de matemática, mas o amor de Joaquim é inédito, nenhum ser humano antes se atreveu a se apaixonar pela escuridão.
Não se sabe ao certo como aconteceu, mas Joaquim passava o dia sonhando pela hora do crespúculo, quando novamente veria sua amada. No trabalho, já era uma estátua, trocos errados e clientes insatisfeitos lhe sobravam e, como morava sozinho, em casa, sentava-se em um sofá, de onde via o sol indo e indo, o coração palpitava e a respiração não saia das narinas, o pulmão se virava como podia, sem ar.
Enfim, a noite chegava e sua bela entrava devagar pelas frestas das portas e da janela, derramando seu vestido negro sobre os móveis e suavemente abraçava-o e ele sem forças arrepiava-se. Que perfume bom traz-me, amor. Joaquim sentia, então, na sua boca o toque suave da escuridão, que frio era, e o homem devolvia mordidinha leves nela.
Quando não aguentava mais a excitação, lentamente, sem desgrudar-se daquele vulto apaixonante, se levantava e abraçados iam para o quarto. Lá, começavam a dançar, ora um levava, ora o outro, e se tocavam com a doçura de amores novos, que era certamente o deles, e com a pureza de virgens em colinas de pastagens novas em primaveras. Joaquim ao pouco ia despindo a roupa que levava e cada peça podia sentir melhor o corpo de quem tanto amava, ele se enchia de prazer, ofegava a cada movimento e se estremecia, às vezes ria-se da reação do seu próprio corpo, que tremia e se contorcia.
E passado um tempo, vería-no-mos completamente nu se a escuridão, seu par, não o cobrisse ali por completo. Eram um homem nu e a total ausência de luz formando um único ser, de onde ouvíamos os gemidos sinceros daquele e o silêncio dessa, na mais perfeita harmonia, no real prazer que o amor os dá, o prazer de estarem juntos, compartilhando a pele e o ar, tendo nele a escuridão, tendo nela o Joaquim.
Quando acordou, Joaquim não quis abrir os olhos, sabia que ela já tinha ido e a claridade tomara seu lugar, na sua frente a tinha, na forma perfeita, ou na falta de uma forma, mas estava ali na sua frente. O pior dessas noites de amor era que ele sempre adormecia e quando acordava já não a via em lugar nenhum, não podia por muito tempo tê-la ao seu lado.
Ele, então, se matou. Agora, na eterna escuridão, poderia com ela mestrar a mais bela dança, ela já informe como é, ele na sua nova forma que a completava, alma informe então se tornou.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Vazio II

Sem dor nem felicidade, me sinto no completo vazio de sentimentos e pensamento. Tento encarar essa falta de tudo como apenas um passo, como o princípio de novas coisas, mas me perco sem rumo, nessa neblina que me cobre os olhos e, de tão densa, me segura ao chão. Entrego-me ao chamado e durmo na espera de amanhã.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Teia

Tece a teia, menina
Tece a teia da sua vida.
Pegue os fios e entrelace
Faz um tecido bonito,
Bonito de se ter.

Trama colorida,

de cores brilhantes
e sorrisos amantes.
Tece essa teia que é sua
Tece essa que é sua e minha.

Que bela vida você leva,
Que histórias fantásticas tem
Junte-as nesse entrelaço
Junte-as a mim
E faça um belo bordado nas pontas

Teia de fios de alegria.
Faça dela a cortina
Que cobrirar a janela
E não deixará o frio entrar.
Tece por nós

Agulhas de metal
Cadeira de madeira
Sua pela dá o tom
Sua voz o som
Sinto-me parte desse passo

Tece a teia, menina
Tece a teia da sua vida.
Erre uns pontos para eu poder te ajudar.
Esse tecido enxugará nossa casa
Esse tecido enxugará as minhas lágrimas.

Tece esse amor meu e seu

Felipe Fernandes








segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Um único carinho, foi a última coisa que Silva pensou antes de morrer, não somente na hora em que desligaram os aparelhos que o mantinham vivo, mas nas horas que agonizava em sua cama de hospital, nos segundos antes de ter sido atropelado por um ônibus no centro da sua cidade, nos dias que haviam se arrastado até aquela tarde perfeita de inverno, talvés nos meses ou anos anteriores. Silva viva da esperança que o sonho de sentir em sua pele o carinho de alguém e morreu quando a esperança acabou.
Silva era lindo, tinha braços fortes, dentes certos e brancos, sua pele era clara como sua alma e seu cheiro se sentia bem longe de onde estava. Silva era triste, mas ninguém via, suas lágrimas eram escondidas em pequenos frascos, com os quais fazia seus próprios perfumes. Era tão triste por um simples motivo: era incapaz de amar.



Não estou gostando desse texto, mas fica essa parte por aí.



domingo, 25 de outubro de 2009

Mais um

Based on tweet nº 427

Odeio números, a contagem me cansa. Odeio números e odeio pessoas que se comportam como tais, mais um aqui, mais um acolá. De igual modo, odeio quem me trata como um número, não vim ser mais um para ninguém.
De mais-uns, esqueço o nome, o rosto e o gosto, de mais-uns não sobra nada além de um número. E De que me serve um número? Gosto de pessoas marcantes, datas memoráveis e carinho eterno, mesmo que o fim venha. Gosto de sentimentos envolventes, frio na barriga e saudades. Um número é incapaz de me dar essas coisas, ele vem, ele vai e sem nenhum sabor de quero mais, ele me deixa no portão de casa.
E como dói transformar expectativas em estatísticas. E como dói saber do vazio de algo que podia ser grande, que queria que fosse grande. Não gosto de vazios, de números pequenos, um, só mais um.
E desse modo, deixo-me ficar no portão, naquele mesmo portão, com nenhum gosto na boca, com nenhuma esperança, com aquele sentimento de vazio, bem, talvez alguém ache que eu lucrei, tenho mais um.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Vazio

Sinto a dor, a dor que sinto em minha completa solidão.
Se sou tão desejável, por que não sou tão desejado?
Queria alguém perto, mais perto, mais, um pouco mais.