quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Nas Terras dos Confins do Mundo
Alice, criança ainda em suas feições e velha bondosa em seu coração, analisava com cuidado cada pedaço do quadro sublime que se desenhava em sua frente e o único defeito que via era sua própria e desarmônica presença. Não era natural! Sua roupas eram caras, seus sapatos desgastados no caminho ainda reluziam, sua pele mantinha o bom cheiro. Mas, ali, longe de tudo, onde não havia como seguir adiante, era seu lugar, o que inspiraria seu último fôlego e, como todas as Alices, Clarices e Janices, como todos os Paulos, Mauros e Lauros, como todos os pássaros, flores e pandas, como todas as lesmas, besouros e aranhas, se entregaria e comporia os Confins.
Chorando como um gato, nasceu num dia comum e nenhum jornal publicou o cometa que iluminou o céu naquela manhã. Ninguém viu.
Cresceu sozinha, como crescem aqueles que estão destinados a grandes coisas; nunca encontrou alguém que entendesse a vida, todos queriam um brinquedo, um namorado, um presente, ele queria dançar ou contar histórias. Estudou pouco, já sabia tudo que precisava, sabia que o sol era quente e passeava pelo céu, sabia que passarinho nascia com o dom de cantar e sabia que a morte é mais leve para quem ama. Não queria saber dos livros de Geografia, queria viajar. Não precisava de saber Matemática, pois sabia que uma andorinha só não faz verão. Não precisava de nenhuma língua, pois se expressava com olhar. Parecia muda.
Virou Profetisa.
No fundo do seu quintal, perto da cerca, encontrou o deserto por onde perigrinou. Foi tentada três vezes pela Joaninha que sabia voar. Alcançou o voo quando fechou os olhos e, numa noite nublada, caiu na tentação e se vestiu de joaninha. Após quarenta minutos, estava pronta para sua missão.
Entrou em casa pela portas dos fundos, sua mãe perguntou o que queria pro jantar, sopa. No quarto, arrumou o cabelo e se vestiu de azul, o pingente de coruja no lado esquerdo do peito, os sapatos pretos cheiravam à graxa. Saiu sem despedidas e nem perceberam que faltava alguém no jantar.
Na praça da sua vila tristonha, um chafariz tornava ainda mais melancólica a luz do luar, e com suas águas brincava um menino pequeno que cantarolava um canção familiar para Alice. Quando se aproximou, o menino virou com seus olhos grandes e disse: "Nos Confins da Terra encontrará seu destino" e apontou a estrada suja e medonha, de onde só vinham histórias tristes e assustadoras e era bem sabido que nos Confins, como tudo mais, Alice encontraria seu fim.
Nunca soube de alguém tão nova rumando por aquele caminho, nunca soube de alguém voltando daquele caminho, o murmúrio contínuo que vinha de lá trazia consigo gemidos de dor ou de amor que não se podia suportar. Mas, mesmo com um medo de quem come algo novo, sujou seu sapato na primeira poça de lama que encontrou no caminho.
O caminho era como todos caminhos que não levam a lugar nenhum e descrevê-lo seria entediante e sem propósito. Importante é dizer o que pensava Alice, sentada numa pedra chata, enquanto admirava a visão dos Confins do Mundo.
Sentada ali, pensava no seu caminho com certa dúvida; por ora, achava que permanecia em sua cama e sonhava com terras estranhas, cheias daqueles seres fantásticos, talvez imaginários, chamados de gente. No caminho, encontrara um homem que lhe ensinara as usar as pernas para dançar. Uma moça que usava uma trança de cabelos pretos e flores. Um garoto que escrevera uma poesia sobre amor. Um senhor que demorava um dia para chegar à cozinha. Uma mulher que não sabia dormir. E árvores de mais de 30 metros, borboletas com cores brilhantes, pássaros falantes, cachorros empolgados que lhe surravam o vestido, um espelho de água em cujos reflexos não se reconheceu e uma cachoeira que imitava o som de seus sonhos. Com ninguém disse uma palavra sequer, mas a todos, com o olhar, transmitiu o que sabia sobre a vida, e todos lhe agradeciam com pão e chá.
E numa curva à esquerda, sabia que tinha chegado ao seu destino. O paraíso, se me permitem, não é tão bonito, a natureza intocada, o som de cantos e de águas, o caminho com pedrinhas de brilhantes não se faziam confundir. Ali, onde ninguém vivia, a paz era absoluta. Ali, onde não havia teto para oferecer proteção, Alice se encontrou. Sozinha, sem uma alma que lhe dirigisse um olhar falante, ela deitou e beijou a grama que cobria o chão; a grama vibrou com o carinho recebido, envolveu o corpo fino de Alice e fez dele um punhado de pó que tornou mais lindo o lugar em que jazia.
Nesse momento, um cometa cruzou o céu, e na cidade de Alice, um menino sorriu.
Um Caminho para Esquecer
O Amor é certamente minha força, não acredito que consiga dar um pequeno passo, senão por Ele. E Ele que me torturou seguidamente, que de joelhos implorava por socorro sem ver saída, Ele que me levando aos poucos ao desepero e à angústia, me deu forças para fazer a única que consigo fazer quando me sinto fraco, eu fujo. Estou fugindo, fingindo...
Para que estrada se adorne de flores é necessário que se revire a terra.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
A Máscara
A sala tinha as paredes extremamente brancas, como nenhum
tecido pode alcançar, eram lânguidas, compridas, uma criança diria que elas
certamente encostavam no céu. O chão se mostrava num belo mosaico, que formavam
figuras históricas e contos de amor. A sala era quase completamente vazia,
apesar de suas dimensões exageradas, o que dava ao som uma capacidade única de
ecoar e ecoar, sem nunca deixar de existir, o único móvel visível era uma
cadeira firme que formava o estranho símbolo de uma cruz onde podia se ver os
escritos: “Força e Poder”, na vertical, e “Amor e Dor” na horizontal. Em frente
a essa cadeira estava uma mulher cujos cabelos enrolados e caídos até o meio de
suas costas eram mais negros que se possa imaginar, os olhos também assim tão
negros e de insolúvel reação a qualquer detalhe a sua volta e como na cadeira,
neles, se lia claramente os mesmos dizeres.
Uma capa de cetim vermelho deitada ao chão, tirada há tão pouco tempo
pelos seus movimentos, indicava qualquer tipo de nobreza de sua bela dona. O que a capa anteriormente escondia aos olhos
era um corpo fino de uma cor branca como se refletisse ou fosse molde àquelas
paredes, vestido com simplicidade e bom gosto, num pequeno vestido azul. Aquela mulher que de maneira alguma se
deixaria passar despercebida olhava com tanto pesar, com tanta piedade e amor,
e todo desejo, um homem comum, de vestes tão mirradas que não mereceriam
nenhuma descrição, que ajoelhado aos seus pés respondia ao olhar daquela com
intensidade e confusão.quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Minha Poesia
terça-feira, 26 de julho de 2011
Double Rainbow

No lado leste das Montanhas Viradas para o Oeste, nasce um Rio. No príncipio dos tempos, surgiu em suas margens uma parca civilização sem valor nenhum, os homens que lhe deram origem puderam ver o nascimento desse Rio e o que exatamente aconteceu é contado assim:
"Quando Deus e a Deusa se uniram e criaram o Universo, o Sol e a Terra, com todos os seres que ali viviam, homens, animais, plantas, a última era completamente seca e sempre que os seres necessitavam de água, a Deusa fazia descer do céu a chuva, cujas águas todos os seres eram capazes de estocar e assim eles se mantinham por alguns dias. Deus, que é bom, via sua amada mulher desdobrar-se em esforços sobredivinos para saciar a sede daquele povo, a que ela desprendia toda sua atenção e cuidava como se fossem as pessoas rosas prontas a desabrochar, e a benevolência de sua esposa para tão insignificantes seres moveu seu coração que por toda a Terra pode se ouvir as batidas fortes que anunciavam como trombetas a ação do Rei.
Tomado por criatividade artística de Criador, Deus tomou sua esposa e a deitou sobre as Montanhas Viradas para o Oeste, com a precisão de um médico, enfiou sua mão no útero dela e retirou um dos seus ovários, o qual assoprou. O ovário, sobre a ação de fluido tão puro, se fez água e ela foi posta sobre as Montanhas, descendo-as devagar, formando por onde passava o Rio. A chuva se tornou desnecessária e nunca mais ocorreu."
O Rio tinha Alma que era límpida como seu leito, brilhante como sua superfície e refrescante como as muitas águas que corriam. Ele tinha a capacidade de por onde passar deixar tudo mais feliz, as pessoas que sua água bebiam diretamente sentiam alívio de suas dores e o seu balançar podia embalar bebês, pois sua correnteza mansa nunca os levava para longe de suas mães. O Rio ia até o fim da Terra, mas a Terra não tinha fim.
Após anos de completa harmonia, o Sol pediu ao Rio que se esforçasse e lançasse no ar algo de suas águas, porque tinha tido uma ideia e seria ótima. Diante de tal pedido, todos os homens se ajuntaram às margens do Rio, ele, por sua vez, se contorcia e se revirava tentando desprender de si um pouco de água. Passados dois longos meses em que nenhum progresso era feito, algumas águas se desprenderam e subiram aos céus. O Rio logo exclamou sua vitória, o Sol fez força para aumentar o seu brilho, as pessoas olhavam curiosas para cima, quando a água e os raios solares fizem no céu um arco, colorido e brilhante, algo que ninguém nunca tinha visto igual, até os Deuses se encantaram e lhe chamaram arco-íris.
Aquele espetáculo começou a ser constante por anos e sempre que acontecia, os homens tiravam folga de seu afazeres praa olhar o céu e os Deuses assopravam vida por toda a Terra.
Quando a visão do arco-íris já não deva tanto prazer, o Sol decidiu aumentar a potência de seus raios e tentar a chance. Na hora marcada, o Rio se contorceu, jogando água no ar e o Sol gritou de dor aumentando muito o seu brilho, desse movimento surgiu um arco-íris duplo que se fixou no céu, levando todos os habitantes da Terra à total contemplação. O dia se foi, a noite chegou, e o duplo arco-íris permanecia preso à abóbada celeste.
O Rio que sereno continuava a descer pelas terras admirava o arco-íris e pensava que nem os Deuses eram tão belos e antes que o Sol nascesse outra vez, caia apaixonado pelo arco-íris. A partir de então, em sua função, trabalhava, sem tirar os olhos daquele arco que cortava o céu e das suas margens, saia melodias harmoniosas que a todos diziam de amor. Durante o dia, descia seu caminho como sempre havia acontecido e, pela noite, se contorcia e se esforçava para alçar o céu, sem conseguir êxito nenhum.
Séculos se passaram, o arco-íris continuava colado ao firmamento, o Rio, seu amante, continuava a tentar em vão lhe por as mãos, lhe tocar os lábios, sentir o cheiro, e só corria seu caminho dia após dia. Suas águas se tornaram grosseiras, seu sabor, pestilento, seu brilho se esvaecia... Em dor, o Rio derramou uma lágrima em sua margem, e depois outra, até que um pranto se escoasse e muitas lágrimas lhe cobrissem a margem, tão forte era o choro, que as Montanhas Viradas para o Oeste se viraram para o leste para saber o que acontecia. Como nada o fazia parar, pois sua dor nunca fora conhecida na Terra, o Rio transbordava e ocupava todo o chão que antes eram onde os homens plantavam e viviam, esses, amendrontados, fugiam a lugares mais altos e pediam misericórdia dos Deuses.
Vendo tanto sofrimento sobre a Terra que fora criada para ser feliz, os Deuses destruiram o arco-íris no céu, seus pedaços caiam sobre o chão e sobre o próprio Rio, que, ao sentir sobre si a textura leve e agradável de sua amada, acalmou-se. Entretanto, nas terras baixas, o Rio se tornara imenso de modo a não ser possível ver um único pedaço de terra. Os homens, tranquilazados pelos Deuses, desceram para perto das águas e as provaram, "Águas de dor, águas salgadas de dor!".
Águas salgadas, turbulentas, escuras e sem fim. Águas de dor.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Orações

Quero partilhar com vocês belos textos que me estão fazendo muito bem por esses dias de trevas pessoais!O Peregrino do Senhor
Altiva Noronha
Senhor!
Eu gostaria de servir,
Gostaria de dar o meu contributo
em favor de um mundo melhor. Gostaria de ser grande e nobre,
para que a dor batesse em retirada da Terra.
Eu gostaria de ser como uma Via-láctea de estrelas,
Para que as noites da Terra fossem mais belas!
Mas ante a minha pequenez, Senhor?!
Não podendo, então ser uma Via-láctea,
deixa-me ser um pirilampo na noite escura,
Iluminando a amargura
de quem vive na escuridão.
Eu queria ser como a chuva generosa,
que caísse sobre a terra porosa
e reverdecesse o chão.
Mas, se eu não o conseguir,
eu te venho pedir
para ser o copo de água fria,
matando a sede, a agonia,
de alguém que está na desesperação.
Eu queria ser como um jardim de flores
de todas as cores,
para embelezar a Terra,
mas, na pobreza que minha alma encerra,
se eu não puder ser um jardim,
deixa-me ser uma flor solitária
na rocha colocada,
para dar beleza
e dignificar a natureza.
Eu queria ser um trigal maduro,
para repletar a mesa
da Humanidade com o pão!
Mas se eu não o puder,
aqui estou a rogar
para ser um grão
que, caído no chão,
se transforme num milhão
e atenda à fome inteira da multidão!
Senhor!
Eu gostaria de ser a montanha altaneira,
donde se tivesse a visão da Terra inteira,
mas, como nunca o hei de conseguir,
aqui estou a pedir
para ser uma pedra
pavimentando o caminho por onde seguem os heróis,
ou uma escada
para ajudar a subida dos homens.
Mas, se eu não o lograr,
deixa-me ser o primeiro degrau...
Eu queria, sim
ser poeta,
orador,
esteta,
artista,
prosador,
para cantar a magia,
a poesia,
a beleza da Tua Mensagem
de eterna pujança!
Mas, como me faltam o estro,
a palavra,
a tinta,
a empatia,
deixa-me, Senhor,
ficar à sombra de uma árvore
no caminho,
para quando passe alguém
de mansinho,
eu lhe diga:
- “Olá, meu amigo!”
E ele, olhando-me,
Possa perguntar quem sou
E eu lhe responder, tranqüilo: “Sou teu irmão.
Dá-me tua mão.
Irei contigo..."
Ó Senhor!
Muito obrigado,
porque nasci,
porque creio em Ti.
Muito obrigado!
Oração de São Fracisco de Assis
Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; Onde houver ofensa, que eu leve o perdão; Onde houver discórdia, que eu leve a união; Onde houver dúvida, que eu leve a fé; Onde houver erro, que eu leve a verdade; Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver tristeza, que eu leve a alegria; Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, Fazei que eu procure mais Consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois, é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Ensaio sobre a Dor
É pela Dor que os homens crescem, é pela Dor que tomam consciência de si, suas verdades. Na Dor, o homem encontra seu tesouro mais precioso, ele encontra seu próprio Espírito. A Dor é nascida do Amor, o Amor que, primeiro, se escondeu, depois, se deu e, enfim, se revelou. Das águas tortuosas do Amor, nasce a calmaria trazida pela Dor. É por Ela que o homem sabe que tem que continuar, se levantar e ir à luta, se embebedar de Amor e Paz. É por ela que a História progride e a Ciência se faz. O Sol só se levanta pela manhã por causa da Dor dos homens, o mesmo se diz das nuvens que descarregam-se para limpar o que restou do Amor.
É das chagas da Dor que se tiram os melhores poemas, é do meio de Seus espinhos que se pode ver Deus, é pelo sangue derramado e emposado no chão que se pode fortalecer o coração. Cada parte do homem treme e arde à Dor e de um turbilhão ecoa sua voz que diz: "Me leva, Dor, me leva". A Dor é uma amante de noites frias e suas fantasias sexuais.
A Dor é o Caos. Dele tudo deriva. Cada sensação humana, cada gesto e emoção passou por Ela e se criou. Ai, daqueles que não entendem a Dor e evitam-na! Todos deviam sentir o quão divina Ela é.
Dedicado à Luana Justus, Dani Kafuri, Bethânia Vaz, Luma Verdeiro, Laís Comini, João Paulo Nóbrega, Thi, Fernanda, Francisco e Camilla Fukunaga por saberem me mostrar o melhor caminho e a Henrique Rodrigues Neto por me mostrar que não sou de pedra.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
O Céu
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Vida
De manhã, uma, pela noite, outra
Cresce o menino que não quer crescer
Fica forte e saudável como a mãe quis
Cresce o menino, diminui o mundo
Um mundo triste e vazio que o menino não quis
Uma vida é uma ilusão
É um dia e seu fim
O menino tem saudades dos brinquedos
Ele não quer mais voltar
O menino lembrar do primeiro beijo
Já tá na hora de casar
O relógio é a faca
A vida é o queijo
Num segundo, o menino descobri a verdade
Dói uma decepção, machuca o coração.
Disseram que homem de verdade não tem vaidade
Mas disseram pra cortar a unha da mão
Tudo que se diz dessa vida é mentira
São verdades que a morte vem e tira
O menino não é mais garoto
Mas ainda tem um novo coração
Renova sua vida em si
Mas vida é só uma citação
Quem dera o garoto pudesse ver
A verdade do mundo é o seu querer
Seu querer de tranformar, de renovar
De uma nova vida criar
A manhã trás o sol e a vida
A vida não tem fim
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
O Frade e a Freira
No alto da igreja ao lado do convento, um sino de ouro bate três vezes. Três da manhã, é chegada a hora. A mulher se levanta, pega da cama seu hábito, azul-celeste cheirando a enxofre e só ela sentia, azul-celeste, como a Mãe, pecadora como a outra Maria. Vamos, não temas e atire a primeira pedra. Cobria-se quando ouviu-se um leve toque na porta e pés ligeiros no chão de madeira. É ele, pensou. E seu rosto inundou-se em um sorriso sacro de amor divino, o sorriso pecador e santo que Lúcifer dava ao ver Deus antes de sua queda. Abriu a porta, olhou a sua volta, escuridão. Pegou a vela e seguiu a mesma direção dos passos, mas os delas eram leves e não se ouviam.
Uma bela porta entalhada a mão postava-se a frente da mulher, que a empurrou, levou o corpo para dentro e deu a última examinada no lado fora, escuridão.
Lá dentro, uma igreja, como um altar monumental e ornamentado, no meio dele Cristo crucificado. Morreu por mim, por nós, pelos nossos pecados. Do seu lado direito, Maria se exibia santa e imaculada, azul-celeste, celestial. A mulher virou a cara. A Senhora amou José, amou, sim. E a esquerda dele, São Valentim vestia-se de rosa-púrpura e ria da situação. Essa é a igreja dos apaixonados.
Ela olhou tudo e logo abaixo, via um sinueta masculina, nua. Seu corpo era claro, alvo, e olhava para o altar em busca de explicações.
Eros, sussurou a voz da mulher que ecoou por todo altar e voltou a ela, que se assutou com o próprio barulho. Ele se virou e sorria maravilhado, rígido. Maria. Maria, era esse o nome, Maria, mãe, Maria, paz, Maria, Maria.
Ela se despiu e correu para junto dele e lá se amaram mais uma vez.
Depois da missa do sábado, Tueris, uma freira nova, chegou-se a Maria, Eu vi. Fez um silêncio e ela repitiu, Eu vi. Vi você e Eros, sei de tudo e contarei seu pecado a Madre Verônica, vocês serão expulsos e vai ser agora. Maria não pode nem responder, estátua de sal, olhava para trás, para seu pecado e amava-o. Continuou ali por um tempo, sem pensar em nada e via Tueris se afastar. então correu, tinha que chegar ao seminário, encontrar Eros e lhe contar tudo, ela correu como pode, levando seu hábito azul-celeste, como o tinha levantado na primeira noite que passara com Eros, e correu. Atire a primeira pedra, pecadora que sou, perdoa-me Pai, perdoa-me Mãe, amaste José, amaste. Um seminário antigo, um corredor cheio de futuros padres, uma freira de hábito azul-celeste, linda, era só isso que se via.
Tueria sabe de tudo, nos viu no altar no último dia que lá estivemos, eu e você. Eros olhou para a cara dela desesperada sem saber o que fariam e disse, Não esperava que fosse tão cedo, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha da mulher, Mas sabia que aconteceria e esperava esse momento para te pedir que fujas comigo.
Um seminário antigo, um corredor cheio de futuros padres e uma freira de hábito azul-celeste correndo o mais rápido que podia, iria viver o seu amor.
Maria, ouviu-se o grito quando ela em seu quarto pegava seus pertences, um terço velho de família, umas notas de dinheiro e só, era o que tinha, pobre Maria. Maria, e quando ela saiu pela porta de seu quarto, via Madre Verônica vermelha como as poucas vestes de São Sebastião e Tueris ao lado, sorrindo. Maria correu, dessa vez chorava, era sua vocação que deixava para trás, junto a Madre Verônica e a igreja dos apaixonados, era para Deus que dava as c
ostas e para seu voto sagrado e quebrado. E Maria chorou, como o Filho daquela outra, chorou, enquantou corria desesperadamente para os braços da felicidade que a vida e a carne lhe ofereciam, ela chorou amargamente.Nas portas do terrenos que abrigava o convento, o seminário e a igreja dos apaixonados, Eros a esperava com um burro, um burro! Atrás dela a Madre e a freira ainda corriam, ela parou. Vem, Maria, gritava ele, Maria, Maria, gritavam elas. Era o que realmente queria, não podia deixar tudo isso por um sonho fugaz, então olhou Eros com pesar, virou para a Madre Verônica e tirou do cabelo o véu, jogou- o no chão e correu para Eros que a acomodou em cima do burro.
E pelas estradas andavam, a busca de um lugar para construir uma vida. Em paz, ela no burro, ele a pé na frente e o mundo em volta. Não demoraram a encontrar um lugar bom e bonito, como Maria queria, ao pé daquelas montanhas conhecidas como O Frade e a Freira, construiriam um lar, estava decidido. E ela, enfim, disse, estou grávida de ti, Eros, grávida. E ele sorriu, sob a sombra das montanhas.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Escuridão
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Vazio II
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Teia
Tece a teia da sua vida.
Pegue os fios e entrelace
Faz um tecido bonito,
Bonito de se ter.
Trama colorida,
de cores brilhantes
e sorrisos amantes.
Tece essa teia que é sua
Tece essa que é sua e minha.
Que bela vida você leva,
Que histórias fantásticas tem
Junte-as nesse entrelaço
Junte-as a mim
E faça um belo bordado nas pontas
Teia de fios de alegria.
Faça dela a cortina
Que cobrirar a janela
E não deixará o frio entrar.
Tece por nós
Agulhas de metal
Cadeira de madeira
Sua pela dá o tom
Sua voz o som
Sinto-me parte desse passo
Tece a teia, menina
Tece a teia da sua vida.
Erre uns pontos para eu poder te ajudar.
Esse tecido enxugará nossa casa
Esse tecido enxugará as minhas lágrimas.
Tece esse amor meu e seu
Felipe Fernandes
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Silva era lindo, tinha braços fortes, dentes certos e brancos, sua pele era clara como sua alma e seu cheiro se sentia bem longe de onde estava. Silva era triste, mas ninguém via, suas lágrimas eram escondidas em pequenos frascos, com os quais fazia seus próprios perfumes. Era tão triste por um simples motivo: era incapaz de amar.
Não estou gostando desse texto, mas fica essa parte por aí.
domingo, 25 de outubro de 2009
Mais um
De mais-uns, esqueço o nome, o rosto e o gosto, de mais-uns não sobra nada além de um número. E De que me serve um número? Gosto de pessoas marcantes, datas memoráveis e carinho eterno, mesmo que o fim venha. Gosto de sentimentos envolventes, frio na barriga e saudades. Um número é incapaz de me dar essas coisas, ele vem, ele vai e sem nenhum sabor de quero mais, ele me deixa no portão de casa.
E como dói transformar expectativas em estatísticas. E como dói saber do vazio de algo que podia ser grande, que queria que fosse grande. Não gosto de vazios, de números pequenos, um, só mais um.
E desse modo, deixo-me ficar no portão, naquele mesmo portão, com nenhum gosto na boca, com nenhuma esperança, com aquele sentimento de vazio, bem, talvez alguém ache que eu lucrei, tenho mais um.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Vazio
Se sou tão desejável, por que não sou tão desejado?
Queria alguém perto, mais perto, mais, um pouco mais.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Signs
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Um poeta faz o que não é certo fazer, um poeta acorda no meio daquelas pessoas vestidas com roupas iguais que caminham no mesmo caminho, o caminho de sonhos projetados, de vontades vazias e de vidas translúcidas, ele acorda e para, sofre esbarrões, é xingado, mas enfim consegue perceber que aquele andar é errado, se projeta para fora daquela fila de zumbis e a observa, como dói a ele ver tanta gente diferente agindo da mesma forma.
Um poeta quer ver isso acabar, quer que todos virem poetas, que todos criem, sonhem, renasçam, vivam a vida da forma mais bela. Um poeta acredita na diferença, um poeta é diferente.
Um poeta vê tudo em cores, vê a saída, vê luzes em todos os lados. Ele flutua por sobre as pessoas que tudo ignoram e consegue ler pensamentos, ver sofrimentos e disparar sorrisos. Não aceita o padrão, não aceita a imposição, quer tudo que é seu, quer que tudo seja seu.
Já conheceu a lua, viu as estrelas, sonhou com os deuses, quis pelo menos namorar um. Ele brinca como uma criança, brinca com o mundo, com as palavras, com a verdade.
E tudo que o poeta faz, não faz por simplismente por fazer, tudo que um poeta faz, faz para tirar daquela fila você!
É, um poeta também é louco!
quarta-feira, 22 de julho de 2009
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Enquanto ao Amor, existem amores e Amores, amores fugazes, amores eternos, amores de cama, amores fraternos, paixões... Como distingui-los? Indo até o fim! Correndo riscos, rindo, se entristecendo, quantas vezes um simples olhar nos deixam felizes? O que há nesse olhar, nesse sorriso?? E sempre há a dor, não é isso o que eu quero, não era assim que era para ser, mas somos humanos e nos apaixonamos por humanos, não há um humano sequer capaz de não nos aborrecer, de nos deixar completamente satisfeitos "com o produto", mas há sim alguém ,ou alguéns [quem sabe?], capaz de nos fazer tão bem que defeitos são reduzidos e a vida, tão travessa, se faz boa.